Friday, September 19, 2014

Declaração de Voto!

Com o dia das eleições se aproximando, acho importante declarar o meu voto, como alias, sempre o fiz, mas desta vez pela internet.
Após ponderar bastante, vou votar na Marina Silva para Presidente do Brasil, por inumeráveis razões. Mas antes de dizer quais são os fatores que me fizeram chegar a esta conclusão, pretendo esclarecer os motivos pelos quais estou tão enojado com a politica brasileira. Estou acostumado a  acompanhar os fatos e o noticiário econômico e político durante os outros 46 meses de vigência dos mandatos públicos no Brasil, assim não fico refém da propaganda eleitoral, que vende políticos como se vende sabão em pó! Portanto tenho com muita clareza que o processo politico eleitoral no Brasil é uma grande farsa! Como alias também o é a administração publica, e tudo que deriva da atividade dos nossos nobres políticos. Comecei a construir esta ideia há mais de 4 décadas. Um hábito que adquiri desde 1969, quando me sentava na Sorveteria do Coré pra ler a Folha de S Paulo! Posso dizer que os colunistas da Folha daquela época me ensinaram a pensar, a grande maioria deles, pilares do jornalismo brasileiro,  por exemplo MAURO SANTAYANA, PAULO FRANCIS, SAMUEL WAINER, C. ABRAMO, C. ROSSI, WASHINGTON ..., tantos outros cujo nome me escapa neste momento. Lia também o Estadão, (AUGUSTO NUNES) além de autores como EDUARDO GALEANO, e alguns outros menos notórios. Para encurtar o rosário, destaco a seguir algumas das principais razões que me deixam indignado, e que me levaram até então a decisão de não comparecer nesta eleição no inicio de outubro próximo:
a)       A farsa das Urnas Eletrônicas: Nem vou me dar ao trabalho de citar, basta dizer que existe farta documentação na internet de relatos sobre a vulnerabilidade do nosso modelo. O Youtube é fonte onde aparecem muitas informações sobre os países que testaram, alguns chegaram a utilizar para  logo abandonar as urnas eletrônicas tipo brasileira, por não serem confiáveis. Inclusive países cá da América Latina. Por outro lado, países que não toleram corrupção já desenvolveram suas próprias urnas eletrônicas, com versões a prova de fraude, e nós ainda estamos na primeira versão! E, pior, precisamos ter estomago de ferro para aturar a incessante propaganda na TV do TSE, tipo lavagem cerebral, a favor da confiabilidade das tais urnas! Se isso tudo não fosse demais, ainda vemos o próprio TSE ser presidido pelo ex-advogado de campanha do Lulla da Silva! 
b)      A farsa da Democracia Representativa: Não pode ser considerado uma democracia verdadeira, um país onde os cidadãos são divididos em classes. Nossa Constituição de 88, escrita, desenhada e aprovada pela classe política, perdeu a oportunidade de corrigir esta sinistra e perigosa discriminação. Preferiram manter as coisas como estavam, e, desta maneira, o verdadeiro conceito de democracia UM HOMEM, UM VOTO está sepultado no Brasil. Existem eleitores classe A, que moram em estados do Norte, e eleitores classe B, que moram no Sudeste e Sul, principalmente em São Paulo. Um voto de um eleitor de Rondônia, por exemplo, vale perto de 200 votos de eleitores paulistas!
c)       A farsa dos mandatos remunerados: Um representante do povo deveria ser remunerado pela média salarial da sua cidade, ou estado ou nacional, conforme o caso. O salário médio do trabalhador brasileiro deveria ser o teto salarial dos deputados, vereadores, etc.. Devido a esta distorção, a função publica sempre atrai pessoas sem escrúpulos, que fazem da politica uma profissão. E isto é antigo, desde sempre foi assim. Desta forma poucos com vocação pra servir aceitam se envolver na politica, principalmente porque é politicagem partidária, e não politica de ideias, de planos e projetos de governo que movem o dia-a-dia de nossos ilustres representantes.
d)      A farsa dos poderes independentes: O costume no Brasil é de que o Executivo  comande  o processo legislativo, enquanto o Legislativo busca uma boquinha na administração do Executivo, onde possa obter vantagens, propinas, no comando das gordas verbas dos Ministérios. E assim, ficam reféns uns dos outros, com o rabo preso. E, pior ainda o Judiciário, que aceita passivamente  a condição de sequer poder controlar o próprio orçamento, e cala-se diante das nomeações geralmente apadrinhadas pelo Executivo e seus partidários. Sem moral nenhuma para julgar os casos que envolvem membros do governo. O Legislativo também se acovarda nas situações de fiscalizar o Executivo.
e)      A farsa das funções de Governo: Em qualquer país com bom senso, o governo deve concentrar suas ações nas atividades fim, ou seja, promover a justiça e aplicar as leis. Aqui em Pindorama, a própria Constituição impõe certas tarefas absurdas ao governo, principalmente sem dizer de onde devem vir as receitas para isto. Por exemplo, onde diz que o governo é o responsável para fornecer uma casa própria a cada brasileiro!
f)       A farsa do Estado Empresário:  Alguém em sã consciência pode justificar a razão, para, em pleno século 21,  um governo nacional insistir em ser dono de empresa de petróleo? Escolher participar do jogo de mercado, como qualquer participante que fabrica, distribui, compra, vende  - em vez de escolher se manter neutro pra melhor defender os interesses das pessoas? Ao ser participante perde a condição de julgar e equilibrar as relações entre produtores e consumidores, pois pensa no seu lucro. Ou pior, no caso da Petrobras, nem é no lucro, pois estão quase conseguindo quebrar a empresa, mas sim na distribuição de propinas entre os seus partidários. Este ano de 2014 está sendo muito útil para que grande parte da nossa população faça descobertas interessantes.  Por exemplo, este foi o ano que o brasileiro médio descobriu que a Seleção Brasileira de futebol era mais do Felipão do que nossa! Assim tenho a esperança de que descubram que a Petrobrás não é nossa! Nunca foi, nem nunca será!  Sempre foi um feudo dos seus dirigentes, dos funcionários, dos sindicatos e dos partidos no poder! O petróleo, no subsolo brasileiro, em terra firme ou no mar, este sim, deve mesmo ser nosso, mas que, infelizmente  ainda não chegou a ser! Quando, nestas décadas de existência a Petrobras fez qualquer distribuição de lucros aos seus verdadeiros donos (o povo brasileiro)? Precisamos ter a sobriedade de reconhecer que nossa empresa estatal não tem condição ética para exercer atividade comercial nem industrial, por ser Governo.

g)      A farsa do Estado Banqueiro: O mesmo se dá no mercado financeiro, pois o Governo brasileiro é dono de dois dos maiores estabelecimentos bancários no país: Caixa Federal e Banco do Brasil. Novamente ao agir como dono de instituição financeira, perde a isenção necessária para regular as relações entre Bancos e clientes! Por esta razão pagamos no Brasil a maior taxa de juros do planeta. Novamente não é apenas o lucro capitalista que se busca, mas antes a possibilidade de distribuir benesses, principalmente a clubes e associações que não prestam contas a ninguém das verbas recebida.

h)      A farsa do voto obrigatório: O sistema eleitoral brasileiro permite que oligarquias permaneçam incrustradas no poder por décadas, principalmente manipulando o voto obrigatório, que é facilmente trocado por quinquilharias. Isto decorre do caráter submisso das classes menos informadas da população, e da venalidade que infelizmente é comum entre nós. Com isto, os políticos se aproveitam da fragilidade econômica das pessoas e barganham votos de maneiras cada vez mais criativas, porem não menos criminosas.  O voto consciente, bem pensado fica impotente diante do maremoto dos votos “obrigatórios”! Diante disto tudo, sinto que a cada vez que compareço na minha sessão eleitoral, estou dando meu aval a este sistema porco da politica partidária brasileira!

i)        A distorção do Governo Patrão: O brasileiro precisa entender que apoio não significa passividade bovina.  O comportamento mais digno e civilizado, e mais correto seria o seguinte, onde logo após o termino de uma eleição, todos se unissem no apoio ao vencedor. Que venceu, não para nos governar, mas sim para dirigir o ente Governo, que por sua vez é um servidor do publico. Porém nosso pensamento latino, nos leva a aceitarmos passivamente o papel de vassalos, e assim perdemos a oportunidade de agir como PATRÃO dos políticos. Fico revoltado só de pensar que as pessoas votam nas urnas de maneira tão pouco esclarecida. Estamos vivendo um tipo de democracia totalmente distorcida, pois aceitamos eleger um patrão, ao invés de termos a clareza de estarmos escolhendo nossos funcionários!

j)        A distorção da polarização entre 2 ideologias: O cenário pluripartidário no Brasil favorece a uma enorme contradição, que vem alimentando uma polarização desnecessária entre 2 ideologias, que nem sequer corresponde a verdade destes partidos! Não dá pra ficar agindo como torcida de times rivais. Também é ilógico o alinhamento automático a um determinado partido, até porque no Brasil os partidos são verdadeiros balaios de gato. Um legitimo petista do nordeste é 100% parecido com um pefelista (DEM) do sul! Eu prefiro seguir a orientação de D&C, que nos instrui a buscar e apoiar homens honestos comprometidos com as liberdades individuais. O cenário dos partidos no Brasil se desenrolou nos últimos anos, mais focado em discórdias pessoais do que em ideologia propriamente dita. Se um adversário esta no partido A, o fulano precisa se filiar em ao partido B,  mesmo que não tenha nenhuma identificação com o ideário de B.
k)      Existem outras tantas farsas e distorções, principalmente na Educação, onde as graves distorções já produzem efeitos desastrosos, que se acumulam por séculos de incompetência mesclada com má fé que se começássemos a corrigir hoje, dificilmente seriam resolvidas nas próximas 3 ou 4 gerações de brasileiros!
Isto tudo acima, somado já é suficiente para uma pessoa de bem querer distancia deste processo politico tão contaminado. Mas mesmo assim conclui que desta vez valeria a pena sujar as mãos nas suspeitas urnas, pois  Marina me parece ser a menos pior das 3 opções. Quero esclarecer abaixo porque penso assim:
1))       Eu não teria votado no Eduardo Campos, caso ainda estivesse vivo, pois ele sempre viveu a sobra do nome do Avô. Nunca construiu nada por si mesmo. Foi se envolvendo na politica e viveu como politico profissional, que não tem outra atividade produtiva, não criou uma empresa que gerasse empregos, nem impostos nem riqueza.
2)       Eu não voto no Aécio, mais ou menos  pelos mesmos motivos acima, ou seja, igual ao Eduardo, foi vivendo a sombra do nome do Avô, apenas um politico profissional.  Além do que, já mostrou que não tem zelo nenhum com o dinheiro do povo, ao construir um aeroporto para uso próprio, em terras de sua família!
3)       Eu nunca votei na Dilma, nem votaria agora, assim como nunca votei no seu mentor. Não faço parte do grupo dos arrependidos, (uns 15% do total dos votantes na eleição anterior), pois não cometi o erro de confiar nela. Apesar de não votar nela, dá para imaginar que mediante a insensatez do sistema eleitoral brasileiro, ela pode sim ser reeleita. E talvez seja até justo que ela assuma o ônus de ter que implementar todos os ajustes na economia que serão absolutamente necessários em 2015, para recolocar o país nos trilhos.
Porque estou escolhendo então votar na Marina, mesmo sendo obvio que ela é uma perfeita incógnita? Acontece que, se,  for o caso, estou me dando o direito de errar uma vez, pela primeira vez no voto em eleição presidencial. Se ela me decepcionar, me sentirei com o dever cumprido de ter buscado o melhor para nosso país. Mas para ser sincero estou esperançoso de que ela não vá me decepcionar.
Na verdade para mim é comum não votar com a maioria. Me sinto confortável na minoria. Não preciso ser igual a todos para ser feliz.      Acho que a Marina vai assumir trazendo um pensamento mais conservador em relação a  assuntos polêmicos. Por outro lado poderá ser um avanço nosso país ser representado na ONU por alguém com sua história de luta pessoal, uma vencedora que se alfabetizou já adulta e mesmo assim foi em busca de seus ideais.   Sei que ela representa uma parcela da população sempre excluída, o caboclo do norte, de origem rural, humilde, envolvida em lutas da sua comunidade, e preocupada com o bem estar de todos. Será uma digna e legitima representante do povo brasileiro diante dos grandes fóruns mundiais. E, pelo que sei, ela nunca teve um posicionamento comunista, principal equivoco dos esquerdistas da atual geração. O comunismo está morto, e há muito deveria estar bem enterrado!

A solução para nosso país certamente não é monopólio da MARINA SILVA. Mas com certeza, passa por ela.  Principalmente diante de uma eleição, cujo debate esta focado em picuinhas e temas secundários, como direitos de minorias, fazendo vistas grossas ao que é mais relevante para a grande maioria da população. Não se fala em reforma fiscal efetiva, ninguém defende abertamente a desoneração do custo de produção, não se fala em politica industrial para recuperar a capacidade produtiva nacional. Não se fala em proteção dos ativos naturais da Amazônia, nem sequer ninguém menciona como desenvolver o incrível potencial destes recursos sem deixa-los escapar para laboratórios estrangeiros. Ninguém fala em Medicina Preventiva como politica de estado. Ninguém assume a  necessidade de enfrentar o crime organizado, de penalizar em dobro os criminosos maior de idade que cometam crimes em companhia de menores, nada a respeito da penalização de menores criminosos. Ninguém quer assumir o custo de propor um enfrentamento necessário no controle das fronteiras para aliviar a pressão do trafico de drogas e de armamentos para quadrilhas. Ninguém quer assumir a necessidade da reforma do Judiciário, como por exemplo, propondo eleições livres para as Cortes, controle externo pela cidadania deste Judiciário lento, e geralmente prepotente. Ninguém esta propondo uma linha desenvolvimentista para a nação, sem alinhamento ideológico com correntes do bem ou do mal! A politica externa, que deveria ser clara na postulação de cada candidato é uma leve mancha no portfólio dos mesmos. Ficar em cima do muro durante a campanha, e depois se engajar nas disputas ao lado dos caras errados, isto precisa ser corrigido na nossa Diplomacia, mas ninguém assume. Fala-se da boca pra fora de reforma politica, mas sem apontar como, nem quando! Ninguém defende, nem se opõe a necessidade de capitalizar o produtor rural, de recuperar a capacidade de moagem de cana de açúcar. A Educação precisa urgentemente ser repensada, esclarecendo os direitos e obrigações de cada nível de governo, desde o Municipal, passando pelo Estadual e definindo com o Federal. Ninguém se posiciona a este respeito. O Ministério da Saúde precisa ser despolitizado e ter sua estrutura livre do peso das nomeações partidárias que o aparelharam ultimamente, e ninguém diz abertamente o que pensa a este respeito. Enfim, diante do vazio no debate, que cede espaço para a intriga partidária, permitindo que a politicagem se sobreponha a Politica, me parece que a MARINA SILVA é uma resposta bem adequada aos candidatos viciados no jogo do poder pelo poder!  Caso a Marina vença, vou ter que me engajar de corpo e alma enviando sempre sugestões e criticas. Caso ela não vença, serão mais quatro anos vivendo sob a sombra das mazelas dos políticos brasileiros. Enfim, isso tudo pesou na minha escolha, façam a sua!

Friday, July 11, 2014

Saudades do Tio Paulo


Paulo Belotti, na foto acima tirada em sua residencia em Garça-SP, em 2013.  Com a Rebeca no colo, que aparentemente, por iniciativa própria (canina, mas própria!) trocara de dono nos últimos anos. Não é mesmo, Marines ???
Nos despedimos dele no dia 04 de Dezembro de 2013.
Boas lembranças ficarão comigo, nossos encontros sempre foram cheios de carinho, embalados pelo amor e bondade dele por nós, sobrinhos que morávamos longe! E ele sabia com certeza que nós o amávamos!
Nos veremos novamente quando o Senhor assim determinar.

Thursday, July 10, 2014

7 x 1 - Nem tragédia, nem apagão

Com minha compulsão por ler, acho que já devorei trocentos artigos explicando o inexplicável (segundo  Julio César, nosso goleiro e chorão-mor).  Acontece que eu vinha falando a todo mundo o que eu pensava sobre o Felipão e sua trupe: essa seleção não me representa, é a seleção dele, a famiglia Scolari, sem chegar perto do que é a verdade do futebol brasileiro! Então porque eu tenho que torcer compulsoriamente por esta seleção, se não a reconheço como uma legítima seleção brasileira? E nesta toada, encontrei muita gente que pensa como eu, também acabei lendo algumas bobagens, mas também coisas muito consistentes. As bobagens, não valem a pena serem citadas, mas de positivo posso citar, como exemplo o artigo na Folha de ontem do Vinicius Torres Freire, alinhavando com perfeição o que aconteceu com o futebol brasileiro, comparado ao descaso geral que é tratado a coisa publica no Brasil, entre outros.
Mas quero destacar um artigo do EL PAÍS (Espanha) do Correspondente no Rio,  José Sámano, com a visão crítica de um estrangeiro. Fantástico como ele enxerga a realidade do nosso futebol, a decadência de um patrimônio nacional. Ele identifica como um dos principais problemas, a europeização do futebol brasileiro, a substituição da alegria de jogar pela busca do resultado a qualquer custo!  E assim, ele confirma  a minha insatisfação com as duas últimas conquistas brasileiras em Copas, 1994 e 2002, quando ganhamos sem espetáculo. Me faz lembrar uma citação perfeita de outro fantástico pensador futebolístico, Mestre Eduardo Galeano, o meu uruguaio favorito: Antigamente os técnicos chamavam os jogadores para  treinar dizendo: Vamos Jogar! E os de hoje fazem isso dizendo: Vamos Trabalhar! Não sei se posso, mas segue abaixo um "copia/colar" do artigo O DESMATAMENTO DO BRASIL, em português, do jeito apareceu  na net, quase com sotaque ibérico! Boas reflexões a quem por acaso teve a paciência de me acompanhar, mas pra ser sincero, guardo aqui mesmo é pra meu prazer de reler sempre que quiser!!

O desmatamento do Brasil
A Canarinho deu início a um processo autodestrutivo depois de falhar em 82 com uma seleção fascinante

JOSÉ SÁMANO Rio de Janeiro 10 JUL 2014 - 11:20 BRT  El Pais  España

O estupor dos brasileiros após a incrível derrota diante da Alemanha pode se agravar se Scolari ou algum de seus superiores não corrigirem a situação imediatamente. As palavras póstumas do técnico foram ainda mais alarmantes que o 7 x 1, porque o futebol oferece a redenção por mais que agora a penitência possa repercutir. Ela será ainda mais dura se o problema não for diagnosticado logo, se ninguém se concentrar de forma adequada no erro fatal. Não parece que seja Scolari, que após a maior surra de todos os séculos, disse: “Este grupo está fazendo o caminho para o Mundial de 2018 na Rússia. De nossos 23 jogadores, 14 ou 15 estarão na Rússia. Foi uma derrota feia, horrível, a pior possível, mas ainda estamos caminhando na direção do futuro. Não tenho dúvida alguma nem me falta crédito”.
Por suas palavras pode-se deduzir que o futuro passa por aprofundar a scolarização e nessa teimosia por renegar os majestosos arquivos do futebol local. É alarmante que, após um acontecimento mundial de proporções desconhecidas, o instigador da mudança de padrões vislumbre que o futuro passe por aumentar a dose de mais do mesmo. Já excede a obstinação. O Brasil tem motivos para o pessimismo crônico se o caminho escolhido mais para a frente for Scolari e seus dirigentes insistindo em puxar pelo mesmo fio. Por essa vereda, a Canarinho só terá pela frente deserto e espinhos. O Brasil, seu futebol, está com um grave problema estrutural e em seu fascinante viveiro de sempre agora há bolor. Se existe um tesouro, deve ser um segredo de Scolari e seus coroinhas, porque a seleção se banalizou de tanto rastrear jogadores com sete caninos. Como se Beethoven tivesse passado ao estilo heavy metal.
No Brasil, nem em seus piores ciclos, houve um só Neymar. O de agora parece um talento à parte, como se fosse fruto de um pênalti casual. A deslealdade com o passado, com uma escola mítica, resultou numa fraude, numa ofensa à antologia de Leônidas, Pelé, Garrincha, Tostão, Zico, Ronaldo e tantos e tantos ídolos do melhor futebol jamais visto. Ganharam como ninguém, deliciaram o público e nunca perderam como agora. Os de hoje perderam como nunca e nos mataram de tédio. Um Brasil postiço, sem retrovisores, nada nativo.
O desmatamento começou a partir de 1982, quando o Brasil tropeçou com a Itália no estádio Sarrià e deixou o Mundial espanhol antes da hora, sim, mas nos ombros de torcedores de todo o planeta. Ali, a seleção Canarinho pôs em prática um diabólico plano para fazer frente a uma ameaça que existia apenas em sua imaginação. Aquele Brasil de Zico, Cerezo, Júnior, Falcão e Sócrates só tinha perdido um jogo, mas não o fervor popular, um troféu que transcende os placares porque só está ao alcance dos eleitos. Aquela seleção pegou fogo e, junto com a Hungria de 54 e a Holanda de 74, são os três melhores campeões da derrota na História.
Ninguém mereceu censura, tirando essa maldita bola tão traiçoeira. Longe de se gabar, o Brasil sofreu um doentio ataque de resultadismo, de prognóstico grave.
Insólito, os hierarcas do futebol brasileiro optaram por arrancar a parte mais florida de sua história e apostar em outros meios para justificar o fim. Mas será que não tinham mais motivos que ninguém para saber com quais meios tinham conseguido tantos fins sem ter que justificar nada? O principal, o dos malabaristas de praia, o que não tirava o sorriso da boca nem na final de todas as finais, o dos que faziam piadas com a bola sem por isso rebaixar nem um pouco seu físico fibroso, elástico e resistente. Em nenhum canto do planeta florescia mais, no entanto, chegaram os inquisidores.
O Brasil mandou seu passado para o lixo e quis se parecer com todos os outros. Não foi imediato, claro, porque a genética não se salva nem se altera em meia hora, mas começou a dar pistas. Na Copa do Mundo de 90 foi incorporado um defensor líbero, que então só era um pecado alemão e daqueles que só podem sobreviver com um amontoado na defesa e cruzando os dedos. Já foi uma chatice, embora de algum lamaçal dava para tirar algumas reputações como Alemão, Jorginho, Branco, Careca ou Muller. O problema é que Dunga já se mostrava como o símbolo do nada.
Quatro anos depois, nos Estados Unidos 94, ficou patenteado o invento do quadrado mágico, para desmaio de Didi, Gerson, Rivelino e companhia, que sempre foram mágicos sem geometrias. Aquela ortopedia consistia em dois centrais robustos e dois meias defensores como guardiães. Um deles era Dunga, o outro era o excelente, Mauro Silva, mas com o tempo sua estrela abriu o caminho para uma coluna de canseiras, uma heresia. Romário e Bebeto conseguiram chegar a brindar depois de uma final chatíssima. O Brasil caminhava na direção contrária à sua história, mas ainda tinha alguns recursos, como Ronaldo para chegar à final da França 98, ou a do próprio Fenômeno junto a Rivaldo e Ronaldinho, que colocaram Scolari no trono em 2002.
A imparável queda para a mediocridade engoliu Ronaldinho e Kaká em 2006. A deriva fez com que, na África do Sul, o peso do jogo recaísse sobre Kleberson, Felipe Melo e Gilberto Silva. Havia poucos apoios, mas o técnico Menezes, com o volante nas mãos, não conseguiu com o ouro em Londres 2012 e Scolari voltou a tempo de se proclamar o bravo vingador do Maracanazo, como um Felipão curtido pela Europa. A Copa das Confederações de 2013 foi uma miragem, por mais que a Brasil deixasse de joelhos uma Espanha com poucas pernas e a cabeça em outro lugar. A Copa do Mundo é outra história e as exigências são maiores.

No final da surra recebida da Alemanha, Scolari afirmou também que a própria seleção alemã fracassou em sua Copa de 2006 e na Eurocopa de 2008, mas manteve o grupo de jogadores. Tenta enganar, porque aquela Alemanha mergulhou no melhor de seu passado, no modelo de Overath e não se deixou tentar pela ideia de hercúleos atletas convertidos em jogadores com os pés deslocados. O resultado é esta brilhante geração criada e esperada, até voltar a uma final 24 anos depois. A Espanha, por seu lado, partiu de 2008 com o modelo definido e, apesar do baque nesta Copa, bendita traição a seu furioso e irrelevante passado. No Brasil, o passado era único, mas os Scolaris concorrem para governar o futuro. Isso é ainda mais inquietante que o 1-7. Um resultado traumático que deveria servir para impugnar para sempre o que o Brasil não é mais. A canarinha deve isso ao Brasil e ao futebol mundial, ao que seus antepassados fizeram tão bem. O de agora matava por ser uma úlcera e, desde a terça, por pena. O melhor consolo: visitar o Museu do Futebol brasileiro, a melhor futbolteca do mundo. Será que Scolari visitou?

Friday, July 04, 2014

Para Mariana

Para Mariana,
A citação que a Má postou recentemente no Face do lama  Chagdud Tulku Rinpoche (Tromtar, Tibete, 12 de agosto 1930  Três Coroas, 17 de novembro de 2002) me deixou bastante curioso sobre ele, tanto que fui pesquisar, principalmente para desfazer ou confirmar a impressão causada pela palavras ali contidas.
Descobri coisas interessantes sobre o Lama, que após viver peregrinando por diversos países fazendo discípulos para a sua linha do Budismo, escolheu viver numa paradisíaca região brasileira, na Serra Gaúcha, onde estabeleceu um majestoso Templo Budista, incomparável em terras ocidentais. Por aqui passou os seus últimos 7 anos de vida terrena. Suas cinzas repousam na terra natal, o Tibete. 
Segundo a Wikipedia, ele é um Lama da escola Nyingma de Budismo Vajrayana tibetano, reconhecido como o décimo-quarto renascimento do abade do mosteiro de Chagdud, o Chagdud Gonpa, no Tibete, possivelmente, um terton, isto é, um descobridor de tesouros da prática budista. 
Portanto um homem que nasceu e viveu propriamente apenas para praticar a sua religião.
E, isso parece ser uma grande contradição ao texto estrito da citação, que sugere uma interpretação desfavorável à religião, pois compara pessoas a cães adestrados. Na verdade, ele nem está desqualificando a religião e nem as pessoas.  Mas antes, incentivando as pessoas boas a serem melhores! Portanto o sentido em que esta citação esta sendo usada na Internet para desvalorizar a religião, e menosprezar pessoas religiosas, quando entendido à luz da vida e ensinamentos do Lama, cai por terra. Na mesma fonte onde a citação foi achada, posso citar uma outra, dele, que alarga o entendimento a respeito do que ele pensava sobre religião, abaixo:
A paciência é a maior amiga, pois ajuda a superar a raiva, a forma mais poderosa de desvirtude. Por outro lado, com o passar do tempo, aparentar paciência e ferver por dentro, guardando ressentimento, só trás mais dificuldades. Apesar de haver virtude no fato de refrearmos a expressão evidente da raiva, a verdadeira paciência é a ausência de raiva na mente.
Chagdud Tulku Rinpoche

De maneiras parecidas, nossas religiões, a dele e a minha, nos ajudam a expandir nossa mente e nossos sentimentos á uma dimensão bem maior, muito além da breve existência terrena. Nos incentiva a ser melhores em nosso dia-a-dia. Absolutamente não nos faz cães adestrados ao tentar viver de maneira mais elevada, mais digna perante nós mesmos, perante a parcela da Deidade que nasce conosco, perante nossos semelhantes. É preciso sensibilidade espiritual para discernir o que o Mestre Tulku propõe, para separar o joio do trigo.
Trata-se de um incentivo a elevados padrões de caráter, e não um desincentivo a religião! Ideias que nascem próximas, (ao negar a aparência e valorizar a prática), mas que se separam e seguem caminhos opostos!
Como o próprio nome dele sugere, sendo mais titulo do que nome - carregado de simbolismos, precisamos dar nó em aço!